Hoje tenho vontade de escrever. Uma vontade que estou a ter de adiar desde o meio da tarde, quando dei por mim entupida de palavras, pensamentos, sentimentos, sensações.
Num dia de humor mais por baixo (a roçar o chão, porque não dizê-lo?) a angústia e a revolta tomam conta de mim e, concluo, do meu dia.
Desorientada, procurando o norte (que insiste em não se mostrar), velhos pensamentos e formas de ser e estar me vêm mais à flor da pele e me fazem ficar irritada.
Porquê ter de usar acessórios para estar apresentável no trabalho?
Porquê ser aconselhável, à mulher (portuguesa, note-se!!) usar salto alto no local de trabalho?
Porquê ser aconselhado, desejado e esperado, por uma sociedade deslavada, que a mulher se maquilhe para ir trabalhar?
Não sou asim, nunca fui e parece-me que nunca o virei a ser.
Que fazer? Mudar de país? Combinar acessórios todos os dias (diferentes de dia para dia, pois claro!), usar saltos alto (agulha?!), fazer as unhas duas vezes por semana e maquilhar-me mesmo que não me apeteça nada disso e tal faça de mim o que não sou?
Parece-me que, assim, é que continuarei quasi-desempregada, prestes a ter de pagar para trabalhar as míseras horas que o faço por semana fora de casa (em casa há sempre muito para fazer) e que me são remuneradas e as muitas horas em que continuo a trabalhar em regime de voluntariado (já desanimada, pois as promessas não se cumprem, o tempo passa e o dinheiro não aparece).
É quando dou por mim a regressar a casa (sim, ao fim de semana também se trabalha no voluntariado) e a pedir ao meu "sócio": "Se vais dar uma caminhada, leva a E. até casa dos Avós!". Não me sinto à sua altura, não lhe quero passar o meu desânimo, ela não merece o meu mau humor e descrença.
Pondero dar a caminhada, mas também ele não merece aturar-me (nem eu a mim!!) e fico em casa.
Preparo o sofá, aqueço a almofada de sementes, calço os meus chinelos de pano (já não há à venda!!) e ligo a televisão. Começaram as notícias há pouco e aí fico eu a ver: Haiti, basicamente.
Dou por mim a chorar, a querer ajudar não a angariar fundos que nem sei se lá chegam, mas a dar o que puder a todas aquelas crianças que ficaram órfãs e estão, sozinhas, a lutar pela sua sobrevivência.
Sinto que a minha dor aumenta, mas a minha angústia particular diminui e, provavelmente, espiei algumas das minhas dores pessoais naquelas lágrimas.
A malta regressa a casa, janta-se, trata-se de mais umas questões relacionadas com o trabalho de voluntariado (telefonemas, mails, revisão de documentos), coloca-se a catraia na cama (o que tem vindo a demorar cada vez mais nas últimas semanas...) e vem-se à net.
Facebook, para uma espreita e um artigo que leio volta-me a "dar a volta ao estômago": "Vida dupla". Resumidamente: como se deve estar ou não no local de trabalho, num jantar convívio entre amigos, numa viagem de avião, o que fazer (ou não) com o telemóvel e quando estamos acompanhados de crianças.
Náuseas? Foi náuseas o que senti? Não sei responder, mas sei que me voltou a revolta de se viver num país mesquinho, com tanta pobreza de espírito, onde se dá mais valor ao que se aparenta ser do que ao que realmente se é; ao que se mostra, ao que se tem, ao que é "politicamente correcto" e não ao que somos ou valemos de facto.
Eu até sei e gosto de vestir uma roupa mais "apiraltada" de vez em quando, assim como ponho rimel quase todos os dias, por vezes uma sombra, mas de saltos altos não me devem apanhar, não!
Eu até sei e gosto de usar acessórios, mas é quando me apetece e não quando apetece aos outros.
Eu até sei quando devo ter mais cuidado com o que visto, digo ou faço, mas não me mascaro para tal: adapto-me, "dou uns retoques" mas ficamos por aí.
É nesses dias que oiço tantas vezes dizer "Tu estás um borracho!"; "Hoje cuidado com eles!" ou "Porque não andas sempre assim? Ficas tão bem!".
Sabe bem ouvir, mas se não é confortável, não me venham, POR FAVOR, dar a entender que daí também depende "caçarem-me" para trabalho!
E os meus confortáveis sapatos e botas de borracha rasos?
E as minhas meias às riscas?
E o meu saco favorito que não combina exactamente com nenhum calçado que tenho?
E as minhas meias coloridas feitas à mão, que tanto amo e tão quentinhas e belas são?
E os meus lenços compridos e bandolete-tapa-orelhas?
E os meus lenços compridos e bandolete-tapa-orelhas?
E os meus chinelos de enfiar o dedo, no Verão?
E as minhas calças à pescador?
E EU? Onde fico?!
Stand-by, parece ser a palavra para hoje!
Olá! (daria jeito ter um nome para colocar a seguir ao "olá", mas como não há, fica assim.)
ResponderEliminarParece zangada com o mundo, e isso se calhar, até será bom sinal: o primeiro é o de que ainda é nova, e rebelde; sente que não se encaixa no molde que não foi feito por si, e ao que parece, nem para si.
O segundo é que é saudável ser assim; todos nós temos o direito a ser aquilo que realmente somos, sem cedências, sem compromissos; sentirmo-nos bem na nossa pele, sem ter que adoptar o figurino vigente, que nos querem impor.
Depois, há o mundo onde vivemos onde, muitas vezes, sentimos que não existe espaço para aquilo que somos, e sentimo-nos constrangidos a mudar um pouco o nosso perfil para, não destoar muito do resto que nos envolve.
A vida em sociedade tende a impor regras que não aceitamos, e nos dá prazer desafiar.
Eu acho que com sabedoria e bom senso é possível continuar a ser o que sentimos ser.
E "little things of mine" é perfeitamente capaz de o conseguir; "cheer up, and chin up"!
Um abraço; boa semana!
Vitor
Acredito que vai conseguir um emprego remunerado sem ter de deixar de ser o que é e sentir-se obrigada a vestir uma pele que não é a sua.
ResponderEliminarNão é só cá que os empregadores ou a sociedade nos obrigam a vestir um hábito para parecermos monges que não somos.
É fácil falar quando se tem contas para pagar não é?
Não desespere com percistência e sabedoria vai conseguir dar a volta por cima.
Sei bem do que falas e sinto o mesmo em relação ao país que temos!!! Querem e exigem tudo de nós e em troca dão tão pouco ou quase nada...
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